Há pouco mais de um mês, três mil empregados do Google assinaram uma carta pedindo que a companhia deixe de colaborar com o Pentágono em um projeto militar chamado Maven. Diante da negativa, alguns deles deram o passo seguinte no protesto: pediram demissão. Pelo menos 12 funcionários renunciaram aos seus cargos.

Todos eles, declaradamente, saíram por conta da insistência do Google com o Maven. Apesar de a oposição ao projeto ter aumentado para quase quatro mil funcionários nas últimas semanas, a empresa não desistiu da participação, pelo contrário: defendeu a sua permanência na parceria com o Pentágono.

Mas o que é o Maven? O projeto surgiu formalmente no ano passado como um programa para encontrar formas de acelerar o uso da inteligência artificial em aplicações militares. A iniciativa visa, sobretudo, aplicar a tecnologia na identificação de objetos em imagens capturadas pelos drones das forças armadas.

Basicamente, o Google tem contribuído com o Maven dando acesso e suporte ao Pentágono para uso do TensorFlow, sua biblioteca de código aberto para aprendizagem de máquina. Apesar de a companhia reiterar que a sua tecnologia vai ajudar o Pentágono a identificar ameaças e prevenir a morte de pessoas inocentes, os funcionários que assinaram a carta não ficaram convencidos. Negócios: Google lança novos planos de armazenamento na nuvem e reduz preço de 2 TB

Para começar, há o temor de que, mesmo que o Google se posicione contra, os militares apliquem a tecnologia em ações que podem causar morte de pessoas. Além disso, os funcionários acreditam que a participação contradiz os princípios do Google de trabalhar em prol do bem-estar geral.

Também há questionamentos éticos. O Google começou a colaborar com o Pentágono de um modo um tanto silencioso. Só no final de fevereiro é que a notícia do envolvimento da empresa no Maven começou a se espalhar internamente.

Pressionado, o Google prometeu atualizar os funcionários sobre seu posicionamento ético, mas até agora não o fez. Para um dos que pediram demissão, seria tarde de qualquer forma: “preocupações éticas deveriam ter sido abordadas antes de entrarmos nesse contrato”.

Centcom Combined Air Operations Center

Alguns funcionários decidiram sair não só como forma de protesto, mas também por se sentirem desconfortáveis. “Em algum momento, percebi que eu não poderia, de boa vontade, recomendar que alguém entrasse para o Google, sabendo o que eu sei. Percebi que, se não posso recomendar às pessoas que trabalhem aqui, por que devo continuar?”, disse um deles.

Não deve haver uma debandada massiva. De todo modo, o protesto conseguiu gerar alguma mobilização. Uma nova carta aberta dirigida aos principais executivos do Google pede que a companhia deixe de colaborar com o Maven. A maior diferença em relação à primeira é que esta foi assinada por cerca de 400 especialistas, pesquisadores e acadêmicos de várias partes do mundo.

O Google não se pronunciou sobre os funcionários que pediram demissão, pelo menos até o momento.